A Rainha de Gelo ou The Snow Queen by Joan D. Vinge

A Rainha de Gelo de Joan D. Vinge

A saga de Moon Dawntreader ocupa um lugar especial entre as minhas preferências literárias, levando-me frequentemente a revisitar o fascinante universo de Tiamat para reviver a sua narrativa cativante.
Este mês, decidi mergulhar novamente na leitura de A Rainha de Gelo, romance laureado com o prestigiado Hugo Award em 1981 e escrito por Joan D. Vinge no ano anterior.

Há livros que contam uma história.
E este A Rainha de Gelo faz mais do que isso: cria um mundo onde o leitor sente frio, sente isolamento, sente decadência e sente esperança.

A obra, uma reimaginação do conto “A Rainha da Neve” de Hans Christian Andersen, e segundo as palavras da autora, parcialmente inspirada em “The White Goddess” de Robert Graves, que magistralmente se transformou numa melancólica e intricada space opera.
Levanta-se, contudo, uma questão interessante: teria sido para evitar confusões com o clássico de Andersen que a editora Europa-América optou por traduzir o título como A Rainha de Gelo, ao publicar o romance de Vinge em formato de dois volumes em 1983?

Este foi outro universo que só descobri através do segundo livro, o qual também pretendo abordar num futuro artigo da série Livros da minha biblioteca.
No entanto, ao deparar-me com uma Moon Dawntreader já adulta, lutando incansavelmente pelos seus sonhos, protegendo a sua família e defendendo o seu lar em Tiamat, fiquei imediatamente cativado.

Não resisti à tentação de adquirir os livros de A Rainha de Gelo para saciar a curiosidade de desvendar a jornada desta personagem.
Quis compreender como ela evoluiu de uma figura inocente, saída de um conto tradicional, para a personagem extraordinária e fascinante que conheci no segundo volume.

A Rainha de Gelo é considerado por muita gente um dos grandes clássicos da mistura entre ficção científica e fantasia dos anos 80.
E percebe-se porquê: apesar de ter tecnologia avançada, viagens espaciais, genética e política interplanetária, o ambiente do livro parece quase um conto mitológico, cheio de neve, tradições antigas, profecias, contrabandistas, sacerdotes e mudanças de civilização.

Tiamat é talvez o verdadeiro protagonista da saga, onde se passa a maioria dos eventos importantes da história, que tem ciclos alternados de Inverno e de Verão.
Estes ciclos de Inverno e de Verão que regem o oceânico planeta Tiamat duram 150 anos cada, criando um enorme ciclo planetário de 300 anos.

Durante o ciclo do Verão, Tiamat fica isolado do resto da galáxia devido às mudanças nos acessos estelares.
Quando os portais espaciais reabrem, chegam novamente comerciantes, tecnologia, exploração económica e ambiental, corrupção, e interferência política.

Isso cria um contraste fantástico entre culturas locais quase medievais e civilizações galácticas ultra-avançadas.
Mas Joan D. Vinge consegue a proeza de criar um mundo que transporta o leitor para uma experiência mais lírica, emocional e intimista.

Pode-se dizer que a protagonista do livro A Rainha de Gelo é Arienrhod, uma das personagens mais fascinantes da ficção científica dos anos 80.
Fria, bela e quase imortal, ela simboliza o poder político e científico que domina o planeta, governando Tiamat como A Rainha de Gelo durante os 150 anos que dura o ciclo de Inverno, graças à Água da Vida, um raríssimo elixir só produzido em Tiamat e muito procurado pelos estrangeiros que invadem o planeta durante este ciclo.

Sendo representada como a vilã da história, Arienrhod é manipuladora, inteligente, cruel, sedutora, mas também trágica.
Descrita como de pele pálida e cabelos prateados, ela é tanto uma figura mítica quanto política, que obcecada pela juventude, cria um clone — Moon Dawntreader — destinado a ser sua herdeira e possível substituta, perpetuando o domínio do Inverno mesmo durante o ciclo do Verão.

Como já mencionei, é neste livro que conhecemos uma Moon Dawntreader criança, crescendo nas ilhas junto de seu primo, Sparks Dawntreader, entre os pescadores da etnia dos Povos do Verão.
Desconhecendo a sua verdadeira origem, Moon desenvolve uma visão de mundo empática e naturalista, em contraste com o racionalismo tecnocrático de Arienrhod.

Determinada e sonhadora, Moon ambiciona tornar-se uma sibila — indivíduos capazes de comunicar com uma inteligência cósmica através de rituais de pergunta e resposta.
Quando tem o seu desejo realizado, vê-se subitamente arrancada de Tiamat e levada para longe do amor da sua vida, mas essa provação leva-a a descobrir a verdade sobre o poder das sibilas: são interfaces humanas de um vasto banco de dados.

De regresso a Tiamat, rejeita Arienrhod, e provoca a queda dA Rainha de Gelo, assegurando a transição do planeta para um futuro onde a tecnologia e a tradição coexistem.
Grande parte da força emocional do livro vem precisamente do contraste entre Moon e Arienrhod.
Uma representa renovação.
A outra representa controlo e permanência.

Outro dos elementos mais memoráveis do universo de Tiamat, e os quais não posso deixar de mencionar, são os mers, criaturas marinhas inteligentes que estão ligadas à economia do planeta, e envolvidas num dos segredos mais sombrios da sociedade tiamatiana.
Sem querer revelar muito, basta dizer que a relação entre os mers, a longevidade e o poder político é uma das ideias mais perturbadoras da saga.

É também aqui que Joan D. Vinge aproveita para introduzir pesadas críticas ao colonialismo, exploração de recursos, desigualdade, e manipulação cultural.
E mesmo décadas depois, esses temas continuam actuais.

E por agora é tudo. 8)

Até breve. :-F

Comentários

Malta, comentem, tanto críticas como elogios serão bem-vindos. E eu respondo, não prometo quando mas respondo.

Mas antes de comentarem, leiam as minhas Regras dos Comentários.

Se quiserem deixar o link para o vosso sitio, utilizar alguns estilos ou até inserir videos ou imagens nos comentários DEVEM mesmo ler as indicações nas Regras dos Comentários.

Caso prefiras comentar numa nova janela, ou se o formulário abaixo estiver nos dias ruins, podes clicar aqui.